Escritor/romancista

Escritor, jornalista e publicitário, Mario Vicenti nasceu em Cascavel em 1960 e por inquietaçào e curiosidade andou pelas estradas da vida, sempre buscando uma forma melhor de viver, se autoconhecer e respeitar o ser humano sem armas e sem preconceitos. Romancista com livros publicados gosta de escrever sobre o amor e temas sociais atuais, polêmicos e importantes que nos fazem pensar melhor em nosso papel na sociedade e em nossas próprias vidas.

Para conhecer as obras do escritor basta acessar o seu site pessoal; www.mariovicente.com.br   emails para mario@mariovicente.com.br

Empresta sua namorada?

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Meu primo Mateus, é um cara espetacular, muito carismático, consegue manter uma conversa por horas com qualquer pessoa. Com criança então, ele chega a hipnotizá-las com suas histórias e fantasias, porém, não consegue arrumar uma namorada, aos 23 anos. Eu costumava dar umas cutucadas nele, quando me parecia um tanto cabisbaixo.

– E aí brimo (em tom de sacanagem), não vai me dizer que tá deprimido? Vai tomar todas hoje?

– Qual é Dio Cristo, tá me estranhando brother.

–  Somos primos e não irmãos, caramba. É só dar corda que você se folga né.

– Bem que você prefere eu de irmão do que aquele boçal do Amadeus… E, assim a gente desviava o assunto por pura bobagem. Pelo menos ele tirava aquele ar esquisito que não chegava a dar pena, mas me deixava pensativo.

Um dia ele me surpreende com um pedido inusitado. Vindo do Mateus tudo era possível.

– Dionísio, empresta sua namorada. Disse ele, não perguntou não e na maior tranquilidade.

Respondi de pronto: qual é Mateus, endoidou de vez?

– Quero participar do festival de dança de salão lá em Platinópolis. Justificou o pedido. Modesta a parte, a Danuza é uma gata e tanto. Dessas de tirar o fôlego dos melhores nadadores olímpicos. Às vezes nem eu acreditava como a tinha conquistado. Ela adorava dançar e eu, meio pé de chumbo, travado, só mesmo depois de umas três latinhas de cerveja, aí sim, ninguém me segurava. Claro, dava vexame numa pista de dança, mas sob o efeito do álcool, quem ligaria?

Quando a gente ia em bailes, alguns shows ou festas, Mateus sempre vinha junto. Vez por outra conseguíamos uma amiga de Danuza para fazer companhia ao primo, mas quando elas viam a silhueta do rapaz, o preconceito logo traduzia-se em desculpas que, com o tempo o frustrou demasiadamente. Enfim, claro que não concordei com seu pedido. Primeiro que não seria eu quem deveria decidir, segundo, o festival ficava em outra cidade, a cerca de 400 km da nossa pequena Princesa do Oeste e isso geraria despesas, ensaios e muita responsabilidade. Seria uma trabalheira e tanto. Mas depois me dei conta e pensei se seria por capricho ou para provar algo a sociedade. Ele não justificava seu desejo.

Eu costumava dizer pra ele simplesmente viver a vida sem se incomodar com o preconceito. Claro, pra mim, era fácil aconselhar e, falar é sempre simples, mas vivenciar o problema é que fica complicado. Mateus estava com 115 kg, tinha boa desenvoltura no aspecto físico, nem sei como ele conseguia dançar, caminhar sem se sentir ofegante, jogar vôlei com a turma do bairro. E mesmo assim, a maioria observava-o com aquele olhar velado, porém, inquisidor. Eu percebia esses olhares e algumas conversinhas de canto, entre um e outro falso da turma. Certa vez achei que tinha aparecido a mulher ideal pra ele. A Maristela, de estatura mediana, porém de um gênio muito forte. Eles ensaiaram um romance que durou seis meses, até que ela não conseguiu disfarçar o preconceito e soltou a famosa pérola: você tenta ser simpático pra compensar a sua gordura, pra que isso, se rebaixar pra agradar os outros…e mais algumas ofensas. Mateus era do jeito que era e sempre foi carismático naturalmente. Isso eu tinha certeza, nunca quis agradar ou parecer simpático para pessoa não reparar seu tipo físico. Às vezes ele mesmo brincava com o próprio peso. Foi a gota d’água.

Pra falar a verdade, o problema de seu sobrepeso é genético, pois ele não era um comilão compulsivo e tinha um paladar de gourmet. Não comia pizza, adorava comida japonesa, tailandesa, enfim, além de ser um cara que sabia conversar, era sempre bem humorado e natural. Por isso, não entendo qual é a onda do preconceito, seja ele qual for.

Quem não o conhece, nem se dá ao luxo de conversar e ter o prazer de dar umas boas gargalhadas ou aprender um pouco de filosofia e história. Duas das suas especialidades. Somos suspeitos, eu e Danuza, mas sempre damos força pra ele. Até incentivei a entrar num site de relacionamentos dia desses, mas ele não se animava com a ideia. Então nem insisti.

Acabou que, duas semanas depois, Danuza concordou e achou a ideia fantástica. Fiquei de cara e confesso que pensei besteira. Até mesmo num fiasco dos dois e minha linda namorada pagaria um mico e tanto, caso eles não tivessem uma boa performance e, o que jurados e plateia pensariam sobre o casal? Agora, confesso que tive um rompante de pré-conceito pelo próprio primo, o qual sempre defendia.  Depois cai na real.

Seis meses se passaram e o dia chegara. Fomos no meu carro, numa viagem de cinco horas direto pela estrada principal ao sul do estado. Chegamos em Platinópolis e tínhamos uma noite para descansar, ou melhor eles né, pois eu estaria me divertindo com tudo isso, livre para beber e ficar de boa. Bom, nunca conferi os ensaios deles, pois sempre estava atarefado e Danuza dizia que estavam se saindo bem, então acreditei.

Pena que não filmamos o festival e sabe como foi a apresentação deles? Show de bola, arrasaram, embora o primeiro lugar não veio, mas os aplausos foram reais...

Lembrei disso tudo quando vi esse vídeo de um rapaz parecido com meu primo.

Não tive dúvidas, resolvi fazer uma comparação e homenagear ambos. E meu, hoje, anda de namorada e feliz da vida, com o mesmo peso e mesma simpatia.

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