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Cidade sede da Copa conclui base reforçada para mísseis nucleares

Ilustrativa Pixabay

 "Há sempre um raio da morte ou uma praga intergaláctica prestes a acabar com esse miserável planetazinho. O único jeito de essas pessoas viverem suas vidas felizes é não saberem nada sobre isso!"
A frase é dita pelo agente vivido por Tommy Lee Jones a seu pupilo em "Homens de Preto", comédia de 1997 sobre um serviço secreto que lida com alienígenas. Em um sentido, ela se aplica à Moscou da Copa do Mundo.
A capital russa está inundada por turistas, e a atmosfera nas ruas para pedestres no centro é de festa contínua.
Se o atropelamento de um grupo no sábado (16) e o policiamento pesado evidenciam riscos mais imediatos, o terrorismo, é vaga a noção de que Moscou é um dos lugares que mais rapidamente será vaporizado numa guerra nuclear global.
Se isso parece paranoia de quem viveu a Guerra Fria, é bom pensar duas vezes. Nesta segunda (18), a prestigiosa FAS (Federação dos Cientistas Americanos, na sigla inglesa) divulgou fotos de satélite indicando que a Rússia concluiu uma base reforçada para mísseis nucleares.
O lugar? Em Kaliningrado, uma das 11 sedes da Copa, a cerca de 40 km da Arena Baltika. Antigo território alemão, esse encrave russo no Báltico é a ponta de lança de qualquer cenário de confronto entre o Ocidente e Moscou.
Segundo o diretor da FAS disse ao jornal britânico The Guardian, as obras são evidência inequívoca de que ali estão ou estarão ogivas nucleares.
Em janeiro, a Rússia já havia ativado um regimento de mísseis táticos Iskander-M, que podem levar bombas atômicas, no território. Com alcance de 500 km, eles cobrem os Estados Bálticos, a Polônia e chegam às portas de Berlim.
Com a progressiva deterioração das relações com o Kremlin desde 2008, quando Vladimir Putin travou uma guerra na Geórgia, os países ocidentais veem com preocupação a recuperação militar de Moscou.
Ela é uma resposta dos russos à expansão da Otan, aliança militar liderada pelos EUA, em direção às suas fronteiras depois do fim da União Soviética. Quase todo o antigo bloco comunista agora é parte da Otan, incluindo aí as repúblicas do mar Báltico de que Kaliningrado é vizinha.
"Se durante a Guerra Fria era impossível pensar num confronto nuclear, infelizmente esse risco está cada dia mais real", afirma Ivan Barabanov, 52, analista militar moscovita.
Ele cita longa lista de entrechoques, como a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 ou a crise diplomática atual, disparada pelo envenenamento de um ex-espião russo no Reino Unido em março.
Barabanov contemporiza lembrando que uma escalada nuclear ainda é um cenário extremo. "Mas ele existe, e isso me preocupa, não menos porque moro num alvo."
Ainda que Moscou inteira seja um lembrete dos tempos soviéticos, são escassos os sinais da infraestrutura para uma guerra nuclear -com a exceção de algumas estações de metrô mais profundas.
Só há um abrigo nuclear aberto para visitação na Rússia. Diferentemente de países como a Letônia e a Lituânia, onde há várias instalações do tipo, o produto é raro no país de Putin porque a rede de fortificações ainda está ativa.
O chamado Bunker-42, que abriga um museu homônimo no distrito de Tangansk, foi construído em 1956 para abrigar um centro de comando de espaço aéreo. Após um ataque atômico, ele poderia manter 600 pessoas por até três meses a 65 metros de profundidade.
O lugar chamou a atenção de alguns turistas da Copa. Como tem horários restritos para visitas guiadas, ele estava com "overbooking" nesta segunda (18). "Eu consegui vaga para amanhã, me orientaram a comprar pelo site. A gente passou a vida ouvindo histórias sobre esses lugares, agora quero ver com meus olhos", disse o turista peruano Hector Jimenez, 48.
Há resquícios mais sutis. É o caso da base de alerta antecipado de ataques com mísseis Serpukhov-15, visível para quem chega de avião pela rota de aproximação sul do aeroporto de Vnukovo, no sudoeste de Moscou.
Em 1983, uma época de extremo estresse nas relações entre EUA e União Soviética, o lugar quase disparou uma guerra. O computador falhou e indicou que havia um ataque americano em curso.
O oficial de plantão, Stanislav Petrov, achou improvável que a Terceira Guerra Mundial fosse começar com quatro ou cinco foguetes e esperou sem avisar seus superiores. Estava certo.
Petrov, que morreu no ano passado aos 77 anos, só teve sua história revelada após a Guerra Fria. Ele contava que nem sua mulher sabia o que ele fazia no trabalho, e que era melhor assim, um elogio ao adágio da ignorância como motivo de felicidade que encontra eco nas barulhentas ruas de Moscou nesse junho.

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