A caminhada matutina de sábado, por cerca de dez quilômetros, na pista do maior parque ecológico urbano do Sul do Brasil foi insólita, não só por conta do clima de primavera, mas também pelo aprendizado na hora e meia que passei ali. Fiquei totalmente absorto, vivendo um momento sublime sem desviar os pensamentos do tempo presente, embora tivesse várias preocupações: como fazer uma mudança difícil até fim de outubro.

Hoje, moro na minha terra Natal, em Cascavel no Paraná e trabalho em outra cidade a 50 quilômetros de distância. Em breve, preciso mudar para o Norte do Estado por questões de relacionamento pessoal, profissional e por uma situação específica da minha mãe que tem 83 anos. Esta, é uma etapa da vida que me exige muito discernimento e paciência. Confesso que já calculei os riscos e quero pagar para ver. É claro que existe os prós e contras, porém, prefiro sempre apostar nas possibilidades do novo, característica adquirida na infância por causa do estilo de vida dos meus pais. Ali, as mudanças eram tantas que resolvi sair de casa no início da minha adolescência. Mas até o momento desta importante decisão não tive stress, ainda que alguma energia burocrática negativa e pequenas interferências humanas tentassem me tirar a calma sigo convicto nesse propósito da mudança.

Aprendi nesses 57 anos de vida que não vale a pena sofrer por antecipação. Há muito, resolvi envelhecer com saúde e paz de espírito. Não que eu fuja de problemas, pelo contrário, hoje me posiciono mais assertivamente diante da vida e das pessoas, porém, tudo tem seu tempo. Por isso, essa caminhada foi além do exercício físico. É que nesse dia eu optei por não levar o fone de ouvido, então, deixei minhas músicas em silêncio no celular dentro do carro. Lembrei-me do livro de Eckhart Tolle, “O poder do agora”: nós passamos a maior parte de nossas vidas pensando no passado e fazendo planos para o futuro. Ignoramos ou negamos o presente e adiamos nossas conquistas para algum dia distante, quando conseguiremos tudo o que desejamos e seremos, finalmente, felizes. Mas, se queremos realmente mudar nossas vidas, precisamos começar neste momento. Uma mensagem simples, mas transformadora. Viver no ‘agora’ é o melhor caminho para a felicidade e a iluminação. Assim, fui para caminhada sem pressa, livre, leve e solto.

Longe dos problemas e das preocupações iniciei, no sentido horário, em ritmo cadenciado. Uma volta no lago soma 4.200 metros de calçamento com ciclovia. Revigorante é o impacto inicial quando os cantos dos Bem-te-vis dão as boas vindas (pelo menos na entrada que costumo usar, existem mais cinco pontos de acesso) no sinal aconchegante do seu canto de uma nota só. Logo em seguida é possível ver dezenas de capivaras atravessando a pista, tomando sol na grama ou mesmo se banhando no lago. Resolvi fazer uma contagem, porém, parei depois de 50 nos primeiros 300 metros de caminhada, logo depois de uma pequena ponte de madeira: onde as pessoas costumam parar para alimentar os patos e peixes. Há beleza no desfile aquático dos patos seguido pelos filhotes, saindo de uma pequena mata onde vertem algumas das 200 minas que formam o lago. A fauna tem no lago suas variações: João de Barro, Quero-Quero, Pombas, Pardais, Macacos para citar alguns e antes que você se pergunte, sim, é nesse lago que foram encontradas, em julho, duas onças, perdidas, passeando pela mata que pertence ao exército. Por sorte, elas foram capturadas enquanto o Lago permanecia fechado. Acho que deveria ter mais placas indicativas com nomes e espécies da fauna e da flora: tem apenas sinalização sobre as capivaras e agora, depois da visita das onças, avisos sobre a possível presença de animais silvestres e selvagens.

A flora também é diversa e composta, principalmente, por mata nativa. Gosto de ver as azaleias esparramadas por todo o lado oeste na beira do lago, dando um colorido especial. Outro espetáculo maravilhoso, porém, em outra estação do ano é o das cerejeiras que embelezam tanto o lago quanto seu entorno na avenida. São dezenas, das espécies Okinawa e Himalaia, plantadas entrada principal. Dizem, que foi uma senhora Sansei que esparramou as sementes dessa árvore símbolo no Japão, também conhecida pelo nome de Sakura. Elas floresceram em meados do inverno, o que ajuda a embelezar o lago em outras estações do ano.

Daria para fazer um ensaio ou transformar a experiência num álbum de fotografias pela estética do parque, mas não sou especialista no assunto e tampouco teria fôlego para descrever essa riqueza natural. Por outro lado, tem as pessoas que por ali circulam, além de que o lago serve para atletas olímpicos da canoagem e outras competições que eventualmente são promovidas. O esporte (todos) por si só é de uma energia revigorante e presenciar atletas treinando na pista e no lago é incentivador e, de certa forma nos causa orgulho. Agora, o que dizer das crianças em diferentes momentos. É bonito ver a felicidade delas e suas emoções ao apontarem para uma ave, um peixe, enfim, os olhos brilhando que contagiam quem quer que passe e consiga enxergar essa mesma euforia infantil. Uma vez li num texto que falava das diferenças entre nós ocidentais e os orientais que eles conseguem se emocionar ao olhar para uma flor. Nós, apenas achamos bonito o colorido, principalmente na primavera e, geralmente, fotografamos o momento sem ao menos vivencia-lo. Acredito que pelo menos com as crianças isso não seja verdade. É transcendental a emoção que emana delas. Em outras ocasiões, quando um pai está ali empurrando a bicicleta para o filho ou a filha darem as primeiras pedaladas, eles não cabem em si de tanta euforia. Como se tivesse ganho o maior presente do mundo. São coisas que estão em nossa realidade, no dia-a-dia, porém, como adultos que somos, deixamos de vivenciar essa criança que um dia nos habitou.

Sigo observando atentamente as pessoas que me cruzam, outros que me ultrapassam e aqueles que consigo passar mantendo meu ritmo. Ainda que pudesse pegar apenas um recorte de conversas, fiz um exercício que me deu muito prazer nesse dia. Foi possível identificar o humor de cada um, a energia, o foco e a variedade de assuntos enquanto caminhavam. Pus-me a imaginar sobre as palavras soltas, quase uma frase das conversas alheias: duas amigas falavam sobre o namorado de uma delas e deu para ouvir que a palavra ‘compromisso’ como a grande preocupação (no meu entender é claro). Eram duas jovens de seus vinte e poucos anos, com silhuetas em forma e semblantes serenos, convictas em suas falas. Um casal, seguia lentamente com o filhinho, de uns seis anos, correndo a frente que pareciam em profunda comunhão. Com voz suave o marido instigou a esposa para uma nova viagem à praia. Mais a frente cruzei com mãe e filha que vinham de bicicleta lado a lado. Me encantei com a beleza dos chapéus e a vestimenta. Isso me abduziu para uma cena de filme nos campos da Toscana. Duas senhoras altivamente no auge da terceira idade, como assim a sociedade fala, iam confabulando sobre viagens e passeios, transbordando imenso vigor físico e espiritual, aparentando estar de bem com a vida. Casal de mãos dadas, apaixonados, olhando para o espetáculo que a natureza oferecia e mesmo em silêncio a harmonia do romance era transparente. Enfim, tinha muitas pessoas frequentando o lago nesse dia como têm durante a semana. E nota-se, (graças a Deus), os diferentes estilos, classe, cor, estatura, gostos e ritmos, que conjugam um único verbo diante da natureza e independente da caminhada: viver. Portanto, desfrutar das coisas mais simples e corriqueiras da vida, com a leveza dos pássaros e absorver a força da natureza que habita tanto lá fora quanto no ser humano, energiza o olhar para o belo, que na maior parte das vezes fica escondido num canto vazio e sem cor.

O espetáculo que essa caminhada proporcionou não teve comparações, pois a cada passo, cada metro percorrido recebi uma energia fortalecedora. Algumas imagens chegaram a congelar no meu tempo psicológico, tamanha poesia que sublima o ser. Alguns, até poderiam passar despercebidos, mas a cena foi digna de pintura.  Logo no início da caminhada, nas primeiras horas do dia e, em vários pontos era possível ver a maravilha protagonizada pelo astro rei. O sol mergulhava no lago e esparramava na superfície uma luz cintilante criando milhares de estrelas prateadas que borbulhavam na alma o resplandecer da vida, da energia e dos sonhos.

Nesse dia, até mesmo o alongamento feito no final da caminhada pareceu que meu corpo conversava comigo, exaurindo muito mais satisfação do que cansaço, que só pude agradecer pela experiência. Aprendi muito mais nesse dia, pois fiquei mais leve, viajei nas pequenas frases das pessoas que cruzei, dando asas a imaginação e até mesmo brincando com minhas próprias histórias sem precisar sair do lugar. As raras lembranças que tentaram me tirar o foco, foram exortadas para longe. Percebi o quanto é intenso viver e respirar com os olhos do coração.  Precisamos de pouco, assim como uma criança que circula de sorriso largo e despretensiosa nas brincadeiras infantis. Nessa caminhada pude realmente observar melhor, enxergar pequenas coisas que estão sempre ali, esperando um aceno, um gesto ou uma interação silenciosa que seja. Estar conectado com a natureza, com cumplicidade, é poder nos remeter para um mundo à parte, de muita paz de espírito e profunda harmonia. Foi nessa caminhada que consegui reforçar aprendizados importantes: primeiro, o de viver o momento presente em diferentes situações da vida. Lembro-me de uma das dicas de Tolle, quando ele diz, em seu livro, para fazer uma experiência logo ao levantar pela manhã: “experimente lavar o rosto na pia e tente escutar o barulho da água, sentir a respiração, massagear as mãos com o sabonete sem pressa e ficar assim absorto”. A segunda, é que, o mais importante não é chegar ao destino, mas sim curtir a jornada intensamente, pois o final só fará sentido e só terá graça se conseguirmos acumular olhares insólitos na caminhada para enfim, poder dizer que se tem algo a contar quando se chega lá, no futuro.

 

Mario Vicenti

Escritor e Jornalista

www.mariovicente.com.br    

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