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Guairacá, o maior de todos os chefes

Cem mil guerreiros rechaçaram do Oeste do Paraná por quase um século as tropas dos reis de Espanha e Portugal

16/07/2021 às 09h42
Por: Amanda Fonte: Alceu Sperança
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Estátua de Guairacá em Guarapuava, com o lobo guará que é a origem do nome da cidade.
Estátua de Guairacá em Guarapuava, com o lobo guará que é a origem do nome da cidade.

 

 

Há uma lenda religiosa que liga o caminho indígena do Peabiru, entre a costa do Oceano Atlântico e o Pacífico, à improvável passagem do apóstolo São Tomé pela região, baseada na coincidência com o mito indígena Zumé, entidade com poderes como voar e ensinar práticas agrícolas.

Real, repleto de ramais e registrado histórica e geograficamente em trechos mais batidos, o Peabiru, palavra derivada do Tupi “pe” (caminho) e “abiru” (gramado amassado), faz parte de outras lendas além de São Tomé e restou como um dos raros traços antigos da região do Guairá.

A Província del Guairá, desmembrada da Província do Rio da Prata no final do século XVI, abrangia grande parte do atual Oeste do Paraná, entre os rios Piquiri e Iguaçu. Era administrada pelo Governo Geral do Paraguai, que ao tentar se impor na região enfrentou em 1554 uma personalidade que foi muito mais que lenda: o cacique Guairacá.

A expressão “Guairá”, aliás, significa “terras do cacique Guairacá”, cujo nome significaria “lobo dos campos e das águas”. Atribui-se a ele a máxima “esta terra tem dono”, depois atribuída a outros caciques famosos que negociaram com os portugueses entre os séculos XVII e XIX.

 

Guerras incessantes

Guairacá resistiu à força militar espanhola e aos ataques dos bandeirantes lusos e nunca foi vencido em guerra. A derrota dos índios foi tramada com o uso de ardis, ação religiosa e a exploração de rivalidades ancestrais entre tribos.

Guairacá era o cacique geral dos Guaranis na região e sua resistência atravessou sete décadas. Venceu ou pôs para correr todos os comandantes espanhóis enviados para dominar a região: Domingos de Irala, Nuflo de Chávez, Alonzo de Riquielme e Juan de Garay.

A incursão inicial de 1544 foi comandada pelo próprio governador do Paraguai, Irala. Ao relatar o contato ao reino espanhol, reconheceu “algumas perdas”, mas afirmou que derrotou as tribos rebeldes. “O valor, a tática e a superioridade das armas triunfaram do número” (Alfredo Demersay, História do Paraguai).

 

Na história do mundo

O relato, na verdade, só serviu para escrever o nome do cacique Guairacá na história mundial, pois Irala, reconhecendo seu prestígio, deu o nome “Guairá” à região que antes, em 1542, o governador Alvar Cabeza de Vaca definiu como “Província de Vera”.

O nome Guairacá passou a ser pronunciado com temor e respeito pelo menos desde 1576, quando ele e os “Povos das Doze Aldeias dos Cem Mil Arcos Vencedores” combateram implacavelmente a expedição empreendida por Juan de Garay (1528–1583).

Foi quando a fama do líder indígena pôs finalmente em dúvida as notícias enviadas a Madri dando conta da suposta vitória das forças espanholas sobre os nativos da região.

Liderar cem mil índios, de doze tribos e nações diferentes no território imenso que abrangia os vales do Iguaçu, Piquiri, Ivaí e Tibagi fez de Guairacá, segundo Romário Martins, “a figura-símbolo da resistência às guerras de conquista da terra brasileira, porque foi o único guerreiro indígena que não se aliou, para a defender, com nenhum invasor”.

 

Cacique virou sucuri

Já idoso e cansado de tantas guerras, o cacique recebeu um recado de amizade vindo dos jesuítas e ao procurá-los foi traído, aprisionado e feito desaparecer para que com ele também acabasse a resistência indígena.

Mas a lenda sobreviveu ao ser humano. Depois que desapareceu, começou a circular a história de que seu espírito ficou manifesto na cobra gigante que se levantava no Rio Piquiri e assustava os viajantes, virando os barcos dos militares e espantando os pescadores.

“Num certo ponto do rio [Piquiri], em determinado momento, a água começa a borbulhar e ferver de repente, sendo esse fato provocado, segundo o povo, pelo acordar e sacolejar da sucuri gigante” (Silvia Paula Neduziak, Lendas e Contos Populares do Paraná).

Em 1944, após a criação do Território Federal do Iguaçu, o distrito de Cascavel, que abrangia a região de Cafelândia e Nova Aurora, recebeu o nome de Guairacá, descartado com a derrota do TFI na Assembleia Constituinte de 1946. Para que a homenagem não se perdesse, em 1961 foi criado o Clube de Caça e Pesca Guairacá, com associados de toda a região.

 

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