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A República dos Guaranis era o Oeste do Paraná

Uma gestão religiosa e indígena prometia desenvolvimento e prosperidade, mas sucumbiu aos atritos com os bandeirantes.

23/07/2021 às 08h04 Atualizada em 23/07/2021 às 08h11
Por: Amanda Fonte: Alceu Sperança
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A República dos Guaranis era o Oeste do Paraná

 

Em 1561, o capitão Alonso Riquelme, um dos diversos comandantes espanhóis derrotados pelo cacique Guairacá, avançava pelas matas entre os rios Piquiri e Ivaí, atingindo a região da atual Campo Mourão, à qual chamou de “formosos campos”.

No entanto, os “Campos do Mourão” só viriam a ser assim conhecidos quando o governador de São Paulo, Dom Luiz Antonio Botelho de Souza Mourão, o Morgado de Mateus, ordenou expedições militares à região dois séculos mais tarde.

Em consequência da presença espanhola e uma imensa população indígena, já em 1578 todo o interior paranaense se encontrava em amplo processo de exploração. Nunca foi um “vazio”, a não ser depois das expedições para o aprisionamento de índios para levar como escravos e de sistemáticos massacres.

A história da resistência indígena Guarani* no Oeste do Paraná acabou quando o cacique Guairacá foi traído e assassinado a tiros por soldados espanhóis acompanhados por padres jesuítas por volta de 1620.

No dia de sua morte “vinha com uma estreita tanga na cintura, pintada assim como o corpo e cara; tinha na cabeça grande coroa de arcos bem pintados e cravados de pedras grosseiras porém bonitas. Guiraverá [Guairacá] era mui alto, corpulento e trigueiro” (João Pedro Gay, História da República Jesuítica do Paraguai). 

*Guarani: Guerreiro, no idioma Tupi. A si mesmos eles se qualificam como Ñandéva (os que somos nós, os que são dos nossos).

 

Jesuítas criam cidades de índios

“Após a morte de Guairacá, os caciques que o acompanhavam aderiram de boa vontade aos jesuítas, que passaram a instrui-los na doutrina católica, em espanhol e na sua própria língua” (M. Farla, O Evangelho na Selva).

Em 1588, por iniciativa dos padres jesuítas, a Espanha passou a criar missões no Guairá, com a intenção de colonizar e aproveitar a mão de obra indígena. Elas foram pelo menos quinze.

“A duração destas missões foi curta, pois já em 1631 todas elas já haviam sido destruídas pelos bandeirantes paulistas, que capturavam índios para trabalhos escravos” (Claudia Inês Parellada, Arqueologia do Vale do Rio Piquiri, Paraná: Paisagens, Memórias e Transformações).

A “República Comunista Cristã dos Guaranis” começou a se formar pelo Oeste Paranaense, mas chegou a abranger também regiões dos atuais Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 

Bandeirantes atacam

Em 1607, o bandeirante Manoel Preto empreendeu o primeiro ataque a Guayrá, largada para um progressivo processo de despovoamento da região das missões no território do futuro Paraná.

A bandeira de Nicolau Barreto, em 1609, e depois a da Manoel Preto, em 1611, deixavam claro que as incursões não iriam cessar, apesar dos protestos dos padres endereçados a Madri e Lisboa.

Acompanhado de Pero Vaz de Barros, Manoel Preto escravizou grande parte da população indígena da região do Rio Piquiri e em consequência de ações cada vez mais ousadas e agressivas toda a região, em desoladas ruínas, foi incorporada a São Paulo e, portanto, ao Brasil como resultado dessas conquistas.

A redução do número de Guaranis na região coincide com crescentes relatos da presença de Gualachos (da família Jê, antepassados dos Kaingangues).

O padre Antônio Montoya tentou reduzi-los juntos com os Guaranis, apesar de serem tradicionais inimigos. Reduzir significava reunir em reduções ou redutos,virtuais cidades indígenas.

 

Doença e despovoamento

Os atos finais da experiência republicana do Guarani começam a se definir em 1627, com Antonio Raposo Tavares, a quem caberá dar a pá de cal no sonho da república teocrática em terras do Paraná.

Uma das consequências imediatas da presença dos soldados ibéricos e bandeirantes na região foi a varíola, registrada na região do Piquiri pelo padre Francisco Dias Taño.

“Infectado pela doença, foi salvo ao beber uma infusão feita com mel silvestre que lhe deram os índios” (Nivaldo Krüger, A Primeira República das Américas).

A enfermidade do padre Taño se deu no período em que foi criada a Ermida de Nossa Senhora de Copacabana junto ao Rio Piquiri (provavelmente na futura cidade de Jesuítas), entre 1627 e 1628.

“Nuestra Señora de Copacabana” é mencionada entre as missões jesuíticas da região em documentos de 1628 e no mapa de Willem Blaeu, em 1635.  Outras instalações jesuíticas no Rio Piquiri foram Los Archangeles e Tambo.

Estima-se que o Brasil contava com mais de 3 milhões de índios em 1500, população reduzida para cerca de 750 mil em 2020, segundo estimativa da Funai (Fundação Nacional do Índio).

 

Sobreposição aproximada do atual mapa do Paraná, com o Município de Cafelândia delineado, e a localização das reduções indígenas no período definido como “Paraná Espanhol”

 

 

 

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