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Sertanejo de boteco

Por Rodrigo Alves de Carvalho

14/12/2021 às 09h23
Por: Rodrigo Alves de Carvalho
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Sertanejo de boteco

No boteco do Pedrão sempre teve um violão velho pendurado na parede, próximo à porta do banheiro fedido. Nunca alguém se atreveu a toca-lo, por mais que os frequentadores do bar pegassem o violão, passassem os dedos nas cordas e fizessem gracinhas, não tinham a mínima ideia de como tirar música daquele instrumento, e por isso ficava pendurado na parede, como enfeite.

Até que um rapaz chegou no bar, tomou algumas cachaças e pediu para tocar algumas modas. Todos se espantaram ao ouvir pela primeira vez, alguma coisa parecida com música daquele violão, porque para ser sincero, o rapaz não era lá um exímio violeiro, mas dava para o gasto.

“Quando a gente ama qualquer coisa serve para relembrar. Um vestido velho da mulher amada tem muito valor...”

E o rapaz soltava a voz. Logo, entrou outro jovem da mesma idade, pediu uma pinga e acompanhou a cantoria. Sem perceber, os dois estavam cantando juntos, fazendo primeira e segunda voz.

“Meu ipê florido, junto a minha cela, hoje tem altura, de minha janela...”

— Cara, a gente tem um bom entrosamento na voz!

— É verdade, até que a gente canta bem!

“Doente de amor, procurei remédio na vida noturna, com a flor da noite em uma boate aqui na zona sul...”

— A gente podia montar uma dupla sertaneja. O que você acha?

— Legal! Fazer show, ganhar dinheiro, pegar a mulherada!

— Mas como vamos chamar a nossa dupla sertaneja?

— Eu me chamo Cleydson. E você?

— Aristóteles.

— Então está feito, a dupla Cleydson & Aristóteles!

E toda semana, a dupla sensação do bar, Cleydson & Aristóteles faziam seu showzinho para os pingaiadas e jogadores de pife-pafe do boteco.

Até que num certo dia, um fato mudou para sempre os rumos da promissora dupla daquele bar. Um famoso empresário da música sertaneja entrou naquele furdunço para comprar cigarro.

Ele entrou enquanto Cleydson & Aristóteles cantavam:

“Quem tá com a roela do Eno, quem tá com a roela do Eno, não adianta disfarçar nem ficar escondendo...”

Pegou o cigarro e saiu rapidinho.

Logo depois, duas cordas do violão arrebentaram, e os dois tiveram que parar de cantar.

O Pedrão não quis comprar cordas novas para o violão.

E a dupla acabou.

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Sobre Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores. Desde julho de 2019 vem publicando suas crônicas no Jornal Integração. E-mail: [email protected]
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